12/05/2018

A Vingança da Mãe


Inventamos uma vida para costurar nossos pedaços. E seguimos vivendo porque nunca conseguimos remenda-los por completo. Existe sempre uma necessidade aparente. E esta insuficiência nos move pelo tempo, nos impele a inventar um enredo que faça algum sentido. No caso da mãe foi a máquina de costura.

É possível medir a distância entre um túmulo e o horizonte? A mãe mora em um túmulo. Dizem que a vida de uma mãe se estende através dos filhos. Que medida se usa?

Com trapos e retalhos, na pobreza de uma infância negada, a mãe teve que costurar as roupas das irmãs e as suas próprias. O que poderia ter sido um trauma se tornou sua principal astúcia e consequentemente sua profissão. Até porque a pobreza nunca concedeu direito a traumas. Por isso, a mãe era uma hábil costureira.

Com a costura a mãe diminui as distâncias que lhe diminuíam. Não era porque ela não tinha o estudo e a elegância de uma socialite que não poderia usar vestidos de cortes rebuscados e costuras finas. Se um vestido de novela despertasse o seu interesse, em pouco tempo, lá estava ele, tal e qual, compondo o seu guarda roupa. Queria eu, ter com as palavras, a mesma habilidade da mãe com as agulhas e linhas.

Mesmo assim, faltou a mãe habilidade equivalente para costurar os retalhos de sua própria carne. Carne rasgada, não só no sentido figurado. Faltou mãe, do túmulo você deve saber. Mas hoje já não importa. Minhas palavras também não me costuram. O seu tecido é o mesmo que o meu.

20/07/2017

Horizontes verticais



As vezes eu me sento para escrever sem nenhuma história para contar. Ainda assim me sento para escrever. Não há nenhuma história para contar, mas existe a vontade de contar alguma história. Nunca fui um bom contador de histórias, mas meu fascínio por boas narrativas me colocou aqui, no lugar de onde falo. De onde me exerço. Talvez eu não queira morrer em silêncio, morrer sem ter me anunciado, por isso escrevo. Quase todos morremos em silêncio, quer dizer, sendo silenciados repentinamente. Não quero correr o risco de não ter dito o que queria dizer, por isso me antecipo. Meus epitáfios apontam para o futuro, não para o passado. 

03/02/2017

Alguém por assinatura


Em casa, quando criança, havia um quadro grande que, convertido as medidas que meus olhos lhes daria hoje, seria coisa de um metro de largura por pouco mais da metade disso de altura. Ilustrado por um Ford da década de 20, foi a peça decorativa mais imponente do meu quarto, tanto que é a única que me lembro de ter havido nele. 

29/01/2017

O colecionador d'ela



Eleger ou admitir um melhor amigo não significa que este não possa te magoar. Foi assim que ganhei uma cicatriz no dedo médio da mão direita, foi assim minha reprovação na sexta série do ensino fundamental e foi assim que perdi uma coleção de cartões telefônicos. 


13/12/2016

Eu, os outros


Acho que nasceu comigo certo fetiche por opções rejeitadas. Não escolheram? Eu escolho. Sobrou? Eu quero. Visto-me dos retalhos, me alimento das sobras. Minha vaidade é querer não ser vaidoso e, por isso mesmo, não conheço ninguém mais vaidoso do que eu. La pelos idos da quinta série do ensino fundamental, a escola estava efervescendo democracia. Período de eleições para a diretoria, eleições de líderes de turma, conselho e grêmio estudantil. Até onde me lembro, foi a primeira vez a perguntarem minha opinião demonstrando interesse pela resposta.